IX Bienal da Escola de Belas Artes
Curadoria: Thiago Fernandes e Paula Borghi
Texto curatorial:
No início do século XIX, antes da fotografia, se difundiram aparelhos óticos que tinham como propósito a observação científica, mas logo se tornaram formas de entretenimento popular, fazendo surgir com eles um novo público consumidor de imagens fantásticas. Um deles é o caleidoscópio, cujo nome vem da junção dos termos gregos kallós (belo); eidos (imagem); e skopeo (olhar, observar), ou seja, ver belas imagens. Inventado em 1815 pelo escocês David Brewster, ele trouxe a possibilidade de fragmentar qualquer imagem e romper com a subjetividade unitária, produzindo arranjos variáveis e instáveis para o olhar – operando como uma metáfora do próprio observador moderno, segundo o poeta Charles Baudelaire. Portanto, antes das vanguardas artísticas já estava em vigor um novo regime de visualidade instaurado por dispositivos que rompiam com modelos clássicos de visão.
O antigo fascínio por brinquedos óticos deu lugar ao cinema, televisão e mais recentemente à internet, que criaram novos hábitos visuais. Hoje produzimos, consumimos e compartilhamos imagens em velocidade e quantidade avassaladoras, tendo nossa visão mediada por algoritmos, além de lidarmos com as possibilidades introduzidas pela inteligência artificial e pela realidade aumentada. Que tipo de regime de visão essas tecnologias estão estabelecendo e como as artes visuais se situam nesse cenário? Podemos trazer a metáfora do caleidoscópio para a contemporaneidade, citando Ailton Krenak: “cada gesto, cada minuto, cada evento reconfigura a perspectiva de um amanhã”. Os trabalhos artísticos aqui reunidos, realizados por discentes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresentam uma pluralidade de perspectivas para a arte e para os modos de ver (e de se ver).
É por meio dos “modos de ver”, que notamos o corpo presente enquanto agente desta ação. Dado o grande volume de imagens que evocam o corpo, seja pelo gesto, figuração, forma ou até mesmo por sua ausência, a percepção do corpo fragmentado pela ideia de caleidoscópio é um sintoma que salta aos nossos olhos. Que corpo é este? Quais são seus desejos? Como ele vem ao mundo? Estas são algumas das questões que encontramos nos trabalhos da IX Bienal EBA. Isso porque o corpo não está no singular, tampouco somente no masculino. São corpos, corpas, corpes que performam a diversidade e trazem átona aquilo que os/as/es atravessam, que criam e também se percebem como consumidores de um excesso de imagens e estímulos visuais.
A máxima é: na mesma medida em que vejo, me vejo vendo e me vejo sendo visto.
Artistas:
Agatha Fiúza, Alan Mvnz, Alice Moliv, Amanda & Isadora, Bea Machado, Beatriz Almeida, Beatriz Meirelles, Bernardo Marques, Brenda Cantanhede, Bruna Gama, Carol Nascimento, Clara Bakker, Cláudia Lyrio, Geom. Expressiva, Dani Spadotto, Diana Akokán, Felipe Carnaúba, Fernanda Pontes, Gabriel Mendes, Gabriela Irigoyen, Giovani Melira, Giovanna Rimes, Higor Alcantara, Isabella Raposo, Isadora Duarte, Jean Prado, João Torracca, Ju Morais, Kháos, Leô, Lucas Gibson, Luiz Torres Ludwig, Luiza Souza, Marcela Cavallini, Marcella Moraes, Marina Cespe, Matheus de Souza, Otto Lobato, Rafael Vilarouca, Renato Faccini, Ryan Hermogenio, Sara Zacarias, Sofia Mussolin, Suellen Martins, Vanessa Koiky, Vanessa Marques, Vicente Baltar, Vinicius Soares, Vitor Martins, Vitória Alves
Catálogo:







