Xirê: Léo Pimenta – Quadra da Portela, 2024

Exposição individual de Léo Pimenta na quadra da escola de samba Portela, em Madureira (Rio de Janeiro).

Curadoria: Thiago Fernandes

Texto curatorial:

Léo Pimenta é de Madureira. Esta informação é primordial para falar de seu trabalho artístico. Foi nesse bairro da Zona Norte que ele nasceu (em 1984) e cresceu dentro de uma família majoritariamente feminina e marcada pela presença simultânea de diferentes religiosidades. Lá se habituou a transitar entre os quintais de axé e a igreja católica, entre a quadra da Portela e o Mercadão. A vivência no subúrbio, no samba, no Carnaval e a espiritualidade são as bases de sua pintura.

Formado em Cenografia pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2010, teve na graduação seu primeiro contato com os principais materiais que utiliza em seu trabalho. Sem recursos financeiros para comprar um lápis sépia, exigido em uma avaliação de Desenho Artístico em 2006, Léo improvisou com o que tinha em mãos: uma caneta pilot. E foi assim, transformando a adversidade em oportunidade, que ele passou a explorar as possibilidades expressivas desse material em diálogo com a aquarela, desenvolvendo um vocabulário visual próprio.

Xirê, título da série de pinturas aqui apresentada, se refere à festa dos Orixás, em que estes se apresentam dançando e portando seus emblemas por meio dos corpos dos iaôs. Os desenhos de Léo são compostos por traços amplos, suaves e espontâneos, que evitam figurar as divindades tal como se mostram quando incorporadas, mas buscam sua essência e simbologia. Num jogo entre abstração e representação, com notável poder de síntese, as linhas fazem surgir formas que sugerem ferramentas dos Orixás ou elementos presentes em seus mitos. A elas são somadas manchas de cores que produzem uma ambientação espectral e também se colocam como elementos de identificação de cada integrante do Xirê. 

A composição das imagens, bem como a montagem no Centro de Memórias da quadra da Portela, evoca a dança, justamente um dos pontos de contato entre o Carnaval e os Orixás. A Portela, que vem trazendo em seus enredos a exaltação das raízes africanas da nossa brasilidade, acolhe a exposição Xirê, promovendo o encontro entre diferentes formas de arte. Somos convidados a mergulhar no universo pictórico desse portelense apaixonado, no qual a poética encontra o sagrado.

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