Curadoria: Thiago Fernandes
Texto curatorial:
A função da ala das baianas em um desfile de escola de samba vai além de contribuir para os quesitos de harmonia e evolução com canto e dança. Ela constitui a materialização de uma memória ancestral e afetiva que sustenta o próprio samba. Sua presença remete às mulheres negras e mestiças que, vindas majoritariamente da Bahia, fixaram-se no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX. Instaladas sobretudo na região portuária conhecida como Pequena África, elas não apenas mantiveram práticas religiosas de matriz africana, como também consolidaram espaços de sociabilidade — quintais, cozinhas, rodas e festas — onde a música, a comida, a fé e a resistência se entrelaçavam. Foi nas casas dessas matriarcas, como Tia Ciata, que os primeiros sambistas se reuniram, dando origem ao ritmo que se tornaria um dos maiores símbolos da brasilidade.
No desfile, suas saias rodadas e balangandãs não apenas evocam a estética do candomblé e das festas populares, mas reafirmam a presença do feminino como matriz de transmissão cultural. A dança giratória das baianas, além de seu valor plástico e coreográfico, encena o próprio movimento circular da história: a roda, o xirê, o samba de roda. Assim, a ala das baianas atua como um elo entre passado e presente, lembrando que a modernidade do samba nasceu da ancestralidade africana reinventada no Brasil.
De onde vem o samba, exposição individual de Mery Horta, constitui-se como um tributo sensível às guardiãs da tradição, recuperando, através da arte contemporânea, o legado feminino que sustenta a memória do samba. Ao escolher trabalhar a partir das histórias de cinco baianas de escolas de samba — Alônia Cristina, Caçula, Conceição Horta, Maria Júlia e Zaninha Azevedo — em diálogo com o pesquisador de história oral Ramon Castellano, a artista transforma lembranças individuais em patrimônio coletivo. As linguagens escolhidas — instalações, esculturas têxteis, fotografias e vídeos — funcionam como diferentes pontos de acesso a esse universo, permitindo que a materialidade das obras traduza o imaterial das memórias, dos gestos e dos rituais. O fato de Horta ser também passista da Mocidade Independente de Padre Miguel e filha de uma integrante da ala das baianas da mesma escola confere à mostra um caráter autobiográfico e comunitário: não se trata apenas de uma homenagem, mas de uma partilha de pertencimento, de dentro para fora.
Neste ponto, cabe destacar que a trajetória de Mery Horta a coloca em uma posição singular no cenário artístico contemporâneo. Graduada em Dança, com mestrado e doutorado em Artes Visuais, sua pesquisa acadêmica sempre se estruturou em torno do corpo, atravessada pela experiência como passista, e se desdobrou também na atuação e direção de diversos espetáculos de dança contemporânea, além da prática curatorial. Desde os primeiros trabalhos em artes visuais, Horta tem se dedicado a performances, fotoperformances e vídeos que, em grande medida, dialogam com o universo do samba e do carnaval. Mais recentemente, passou a incorporar outros meios, como esculturas e obras têxteis, que nesta exposição assumem papel central.
A artista produziu parte das obras têxteis em parceria com sua mãe, que, assim como muitas integrantes da ala das baianas, também exerce a costura como ofício. O emprego de fragmentos de fantasias cedidas pela Acadêmicos do Grande Rio, reaproveitados em trabalhos cujos títulos remetem a enredos históricos do carnaval — Avesso do mesmo lugar; Chuê, Chuá; Explode Coração; Quem lava a alma dessa gente — reafirma a circularidade da festa, em que o que parecia efêmero se transforma em permanência poética. Essas peças dialogam diretamente com os enredos e com as escolas de samba a que aludem, seja pelas cores, seja pelos elementos figurativos incorporados aos tecidos. Outras obras, por sua vez, evocam os Orixás, sublinhando o entrelaçamento entre o sagrado e o profano que estrutura o desfile de uma escola de samba.
A exposição também assume um caráter documental e narrativo, atuando como fio condutor entre as memórias das baianas e a elaboração artística de Mery Horta. Esse aspecto se revela nas fotografias realizadas durante os encontros, que preservam a atmosfera dos momentos de escuta e convivência, com especial atenção aos gestos e à indumentária. As instalações de vídeo e áudio, derivadas dessas conversas, expandem a dimensão da oralidade, como se o público fosse convidado a participar da roda de conversa. Já as citações das baianas gravadas nas paredes do espaço expositivo funcionam como inscrições de memória, criando nexos entre as obras e reforçando sua tessitura coletiva.
Tal como um desfile de carnaval, a exposição se organiza como um processo coletivo de criação, em que diferentes mãos, memórias e saberes produzem um conjunto de obras permeadas por afetos, que enaltecem a importância das baianas no universo do carnaval. A prática colaborativa de Mery Horta desloca o olhar do “eu” criador para o “nós” que sustenta o samba. Mais do que registrar histórias, a mostra cria uma experiência sensorial e afetiva que, à semelhança da avenida no carnaval, convoca o público a compartilhar uma memória viva — uma memória que gira, dança e canta.











