inter faces: Jônatas Moreira – Galeria Zoio, 2025

Curadoria: Thiago Fernandes

Texto curatorial:

Jônatas Moreira nasceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, na virada do milênio. Situado na fronteira entre as gerações Y e Z, sua subjetividade foi moldada tanto pelo contato precoce com computadores, celulares e pela expansão da internet, quanto pelas memórias de uma infância ainda marcada pelo mundo analógico.

O eixo central de sua obra é a interação de personagens negros com dispositivos eletrônicos. Ao explorar essa temática, o artista discute a democratização tecnológica nas últimas décadas e, sobretudo, a forma como as identidades são construídas e percebidas no universo digital.

Em suas pinturas, os aparelhos surgem como extensões do corpo humano, mediadores de sua relação com o mundo. Na série inter faces, narrativas de intimidade entre sujeito e máquina revelam a ambivalência do toque, que deixa de evocar apenas o calor ou a sensualidade do corpo-a-corpo para dar lugar a afetos e prazeres mediados pela tecnologia. Já na série paisagem, telas e fones de ouvido aparecem como substitutos de experiências de contemplação direta, reconfigurando, no presente, a tradição da pintura paisagística.

Se, por um lado, o corpo se apresenta mecanizado, por outro, alguns trabalhos de Jônatas inscrevem as máquinas em um ciclo vital, refletindo sobre sua vida útil e obsolescência. Na série objetos, dispositivos em desuso — CDs, fitas VHS, monitores de tubo, disquetes — são tomados por uma vegetação que se expande. O tom nostálgico dessas obras prolonga o debate aberto pelas outras séries acerca do impacto das redes sociais e da disforia da autoimagem. Tal como o memento mori na arte clássica, esses objetos em ruína nos recordam da passagem do tempo, da transitoriedade da vida e da velocidade com que os paradigmas estéticos são substituídos.

A pintura de Jônatas habita uma zona de intermidialidade, na tensão entre a materialidade da pincelada e a intangibilidade da luz dos pixels. Sua paleta de cores chapadas e vibrantes, com sombras que mais sugerem luminescência do que profundidade, faz com que a tela pictórica incorpore a própria lógica visual das telas digitais. Ao articular memória, corpo e máquina, Jônatas Moreira não apenas traduz uma experiência geracional, mas amplia o repertório da própria pintura, transformando-a em lugar de reflexão crítica sobre as imagens digitais.

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