Curadoria: Thiago Fernandes
Curadoras assistentes: Duda Limas, M. Clara e Larissa Damasceno
Texto curatorial:
Habitar é mais do que dormir ou se alojar em um lugar. É um processo que envolve a apropriação de um espaço — fazer dele extensão de quem o vivencia, modelá-lo segundo sua experiência e subjetividade. No ensaio “Construir, habitar, pensar”, o filósofo alemão Martin Heidegger propõe que habitar e construir não se organizam como meios e fins, pois construir já é, em si, um modo de habitar. Entre esses termos há uma relação de interdependência: não habitamos porque construímos; construímos à medida que habitamos. Como corpos situados no espaço, somos sempre seres que habitam, isto é, que praticam e produzem lugares. Neles buscamos abrigo, proteção e sentido, ao mesmo tempo em que deixamos marcas e incorporamos suas formas em nós: sotaques, gestos, hábitos — traços que revelam que habitar não é apenas ocupar um lugar, mas ser atravessado por ele. Habitar, assim, é também um modo de ser.
A exposição Lugares que habito, lugares que me habitam é fruto do 2º ciclo do programa internacional de residência artística da Itinera Arte, que propôs investigações sensíveis sobre o habitar enquanto experiência estética, política e afetiva. A residência reuniu artistas interessados nas múltiplas dimensões do espaço (território, cidade, casa ou corpo) e nos entrelaçamentos que delas emergem. Ana Júlia (Brasil), Clara LKM (França), Dana Jasinkevica (Letônia), Evandro Angerami (Brasil), Jesse Jewelz (África do Sul), Luan Caja (Brasil), Panos Balomenos (Finlândia/Grécia), Rafael Adorjan (Brasil), Saulo Martins (Brasil) e zarro (Brasil) foram encorajados a uma reflexão poética e crítica sobre a experiência do habitar, tensionando o íntimo e o coletivo, o efêmero e o permanente, e explorando as poéticas do cotidiano como forma de perceber, compreender e imaginar o espaço que ocupamos — e que também nos ocupa.
Participar de uma residência artística implica habitar provisoriamente um novo espaço, bem como se expor a outras rotinas, ritmos e presenças. Mesmo para quem já vive na cidade, algo se desestabiliza: o ateliê é outro, os encontros são outros, o tempo se reorganiza. É nesse intervalo que os trabalhos aqui apresentados se constituem. Eles carregam as marcas do habitar praticado nos últimos dois meses: fragmentos da paisagem urbana, vistas naturais e construídas, a arquitetura do edifício da Itinera Arte, novos percursos e encontros casuais. Mas não apenas. Há também uma dimensão menos visível que atravessa essas experiências — uma paisagem interna, feita de memórias, afetos e deslocamentos.
Artistas:
Ana Júlia (Brasil)
Clara LKM (França)
Dana Jasinkevica (Letônia)
Evandro Angerami (Brasil/Itália)
Jesse Jewelz (África do Sul)
Luan Caja (Brasil)
Panos Balomenos (Finlândia/Grécia)
Rafael Adorjan (Brasil)
Saulo Martins (Brasil)
zarro (Brasil)













