Reluz neblina – Itinera Arte, 2025

Curadoria: Thiago Fernandes

Texto curatorial:

Entre o visível e o que apenas se insinua, esta exposição propõe uma travessia sensível pela abstração como experiência temporal expandida. Em tempos marcados pela velocidade e pela dispersão, as obras reunidas em Reluz Neblina (título tomado emprestado da canção “Trem das cores”, de Caetano Veloso) se constituem como zonas de pausa — lugares onde a percepção se alonga e o olhar encontra, no intervalo, não a ausência, mas uma presença expandida.

Julia Pereira parte de uma relação íntima entre corpo, memória e gesto. A artista iniciou sua trajetória na pintura de retrato, mas, à medida que o olhar se voltou para o que escapa à figura, suas imagens começaram a se dissolver, deixando emergir formas fluidas, vestígios e espaços de respiração. Manchas e vazios, densidades e transparências revelam o embate entre o desejo de permanência e a necessidade de deixar a pintura respirar. Suas cores, vindas de experiências cotidianas, carregam afetos e lembranças.

Guilherme Santos da Silva apresenta pinturas em que o rigor geométrico se vê atravessado por uma gestualidade sutil, quase imperceptível. São campos de cor que, à primeira vista, parecem inteiramente homogêneos, mas que, pouco a pouco, revelam variações mínimas — formas que se insinuam apenas ao olhar paciente, à medida que o corpo se desloca diante da obra. Recusando a instantaneidade e a clareza formal, seu trabalho nos convida a desacelerar para acompanhar o ritmo lento da matéria que se transforma na tela.

Assim como Guilherme, Vinícius Carvas iniciou sua trajetória pintando muros na cidade, mas agora faz o caminho inverso, incorporando vestígios dos lugares por onde transita em suas pinturas. Nesta exposição, o artista apresenta trabalhos da série Panoramas, que surgem da sobreposição de formas, cores e fragmentos da paisagem urbana. São composições em tons rebaixados que convidam à lentidão — à contemplação atenta dos recortes, das texturas e dos contrastes cromáticos que se equilibram com leveza. Suas obras revelam o olhar do transeunte que percebe as metamorfoses silenciosas da cidade.

A paisagem também se manifesta nos trabalhos de Giulia Maria Reis. Em suas composições monocromáticas, realizadas pela técnica da cianotipia, o azul se converte em uma zona poética entre o acontecimento e o esquecimento. Os lugares evocados nos títulos — Saquarema, Via Lagos, Rio de la Plata — apenas se insinuam, como memórias à beira do apagamento. Suas imagens tangenciam a abstração e guardam uma qualidade nebulosa, capaz de suspender o sentido, desacelerar a percepção e ativar a imaginação. Já os títulos de séries como rasurar uma paisagem? e pergunte aos rios do que se lembrar revelam diferentes modos de relação entre paisagem e memória: ora o desejo de intervir na imagem que dela guardamos, ora a escuta atenta que reconhece na paisagem uma presença viva, capaz de devolver o olhar.

Os trabalhos de Letitia Quesenberry, compostos por camadas translúcidas de resina, laca, filtros coloridos e outros materiais, parecem conter uma luminosidade em suspensão — como se a luz respirasse dentro da matéria. Em sua primeira participação em uma exposição no Brasil, a artista de Louisville (EUA) apresenta peças que funcionam como véus cromáticos, oferecendo-se como espaços de dúvida: o que à primeira vista parece estático revela, aos poucos, sutis variações de tom, espessura e temperatura — como se a cor acontecesse no tempo. As formas são precisas, quase geométricas, mas nelas algo sempre escapa ao controle: um brilho que se desloca, uma transparência que engana, uma borda que dissolve o limite.

Nas pinturas de Suzana Queiroga — realizadas entre 2004 e 2005 e agora apresentadas pela primeira vez no Brasil — o vermelho intenso atua como campo de força, um plano quase absoluto sobre o qual emergem formas verdes que parecem pulsar. A geometria aqui não é fixa: dissolve-se em padrões orgânicos, em retículas instáveis que evocam tanto a precisão quanto o acaso. As texturas espessas da tinta produzem um relevo que tensiona o limite entre plano e volume, entre o ver e o tocar. O olhar é atraído pelas pequenas variações de luz que fazem o verde e o vermelho alternarem-se em protagonismo.

Em um mundo saturado pela aceleração e pela imagem imediata, esta exposição traz a pausa como substância. É na pausa que a cor se faz duração, que a luz se dobra em silêncio, que o gesto se aproxima da contemplação. Reluz Neblina nomeia esse estado rarefeito — feito de brilhos tênues, aparições esmaecidas, presenças sutis — no qual a cor e a forma não gritam, mas respiram.

Thiago Fernandes – Curador

Artistas:

Giulia Maria Reis (Rio de Janeiro)
Guilherme Santos da Silva (Rio de Janeiro)
Julia Pereira (São Paulo)
Letitia Quesenberry (Louisville, EUA)
Suzana Queiroga (Rio de Janeiro / Lisboa, PT)
Vinícius Carvas (Rio de Janeiro)

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