Curadoria: Thiago Fernandes
Curadora assistente: M. Clara
Texto curatorial:
A intimidade com a natureza atravessa diversos momentos da trajetória de Evandro Angerami, mediada pela ciência, pela espiritualidade e pela arte. Quando decidiu abandonar a formação em biologia, compreendeu que o pensamento científico, embora capaz de descrever o funcionamento do mundo natural, não alcançava plenamente sua dimensão sensível e espiritual. Ao transitar por diferentes religiosidades — do catolicismo ao budismo e ao candomblé — percebeu que sua relação com o mundo também não caberia em qualquer sistema de crenças. Resta, então, a arte: onde matéria e mistério podem coexistir.
Para Angerami, a pintura é capaz de aproximar a concretude do mundo natural de sua dimensão invisível. Seu trabalho nasce da experiência empírica da paisagem, mas não se encerra nela. Trata-se menos de representar a natureza do que de escutá-la. Não como quem observa algo externo e distante, mas como quem se reconhece parte de uma mesma continuidade entre corpo, espaço e matéria.
As obras apresentadas nesta exposição foram produzidas durante o segundo ciclo do programa internacional de residência artística da Itinera Arte, em torno do tema Lugares que habito, lugares que me habitam. Em diálogo com essa proposição, o artista aproxima paisagem exterior e paisagem interna, sugerindo que todo espaço é também experiência percebida e afetivamente atravessada por aquele que o habita.
As praias do Rio de Janeiro tornam-se, nesta série, tema e campo de ação. Produzidas in loco, as pinturas incorporam ao processo os pés na areia, o cheiro da maresia, o som das ondas, a umidade do ar e a duração da noite. Mais do que imagens de um lugar, são registros de uma experiência de habitar o espaço até tornar-se parte dele.
Chama atenção a predominância da noite na maior parte das telas. Em um primeiro momento, estranha-se a ausência da luminosidade solar e das cores quentes frequentemente associadas à paisagem carioca. Mas a noite de Angerami também escapa aos imaginários mais recorrentes do Rio de Janeiro: não é a noite da festa e da boemia, tampouco a noite marcada pelo medo e pela violência. Suas paisagens noturnas produzem um olhar inesperado sobre a cidade, deslocando o horizonte carioca para um território de suspensão e contemplação.
Esse deslocamento não se manifesta apenas na paleta cromática, mas também no tratamento dado à areia, às ondas, ao relevo e à linha do horizonte. A aparente simplicidade das composições e a economia dos gestos articulam uma tensão delicada entre presença material e abertura metafísica. O interesse do artista não reside no detalhe descritivo, mas nos ritmos do espaço, nas variações atmosféricas e no som — ou silêncio — que emana dos elementos naturais.
A pintura de Angerami carrega ecos das naturezas-mortas de Giorgio Morandi e das paisagens marinhas de José Pancetti. Da aproximação entre essas referências distintas emerge uma atmosfera introspectiva e espiritual — ainda que distante de qualquer religiosidade institucional. Ao espectador, a obra solicita a intensidade contemplativa que faz parte de seu processo de criação: um convite a escutar a paisagem.
Thiago Fernandes – Curador













