Curadoria: Thiago Fernandes
Curadora assistente: Larissa Damasceno
Artistas: Anderson Arêas, Ju Morais, Mery Horta, Rafa Bqueer, Rodrigo Hull, Saulo Martins e Vinicius Pitô.
Texto curatorial:
Cortejo é uma palavra de sentidos ambíguos, por vezes até opostos. Pode evocar a festa, mas também o luto; designar um acontecimento solene ou um entretenimento popular; remeter ao sagrado ou ao profano. Há cortejos que celebram vitórias, homenageiam mortos, marcam ritos de passagem, ocupam as ruas como forma de protesto ou se afirmam como performance. O que atravessa todos esses significados é a dimensão coletiva. Um cortejo nunca se faz sozinho. Ele pressupõe um corpo coletivo. Corpos disciplinados ou extasiados, mas sempre em movimento.
É esse sentido de movimento coletivo que enreda esta exposição. Cortejo reúne sete artistas baseados no Rio de Janeiro que exploram o tecido como matéria e linguagem, acionando diferentes técnicas, possibilidades formais e sentidos para o têxtil na produção contemporânea. Os trabalhos aqui situados evocam o carnaval, a arte drag, o ritual, o sagrado, a fabulação e tantos outros sentidos que podem ser englobados na ideia de cortejo. Ao tensionarem a hierarquia que historicamente relegou as práticas têxteis a uma posição periférica no campo das artes visuais, os artistas reivindicam outros modos de compreender essa linguagem. O têxtil é aqui situado para além das convenções que o associam ao decorativo, ao utilitário e ao universo doméstico, por meio de trabalhos que ampliam as possibilidades dessa matéria e abordam questões relacionadas ao corpo, à identidade, à coletividade, à memória e às formas de imaginar e produzir mundos.
Rodrigo Hull, que durante muitos anos trabalhou no mercado da moda, ressignifica o tear como um dispositivo de contraposição à lógica do produtivismo, da escalabilidade e do expansionismo. Os fios de lã de Puerê e Puerá dão corpo a criaturas tentaculares que parecem emergir da própria matéria e reivindicar uma existência para além do humano. O artista apresenta também uma série de objetos têxteis nos quais as tramas são recheadas com ervas sagradas, evocando amuletos, patuás e mandingas. Suas cores e configurações remetem ainda à alegria das ibejadas, entidades infantis dos terreiros de Umbanda.
Em Fool, Saulo Martins aproxima carnaval e loucura a partir da relação etimológica entre fool, folie, follia e folia. Se, em francês e italiano, as palavras remetem à loucura, em português folia se associa à festa, à dança e ao divertimento. É a partir dessa aproximação entre desvario e celebração que o trabalho tensiona as formas medicamentosas de cura e os mecanismos de biopoder que regulam os corpos, ao mesmo tempo em que sugere outras possibilidades de alcançar estados de equilíbrio e sanidade.
Mery Horta, também passista da Mocidade Independente de Padre Miguel, é filha de uma costureira e baiana da mesma escola. Graduada em dança e doutora em artes visuais, sua trajetória cruza experiências pessoais e a tradição carnavalesca. Em Explode coração, tecidos reaproveitados de fantasias evocam a visualidade das baianas das escolas de samba, figuras que materializam a ancestralidade do samba com suas saias rodadas, balangandãs e sua dança giratória que encena o próprio movimento circular da história. O trabalho também homenageia o desfile do Salgueiro de 1993, que contagiou a Sapucaí e deu origem a um dos grandes hinos do carnaval.
A artista e figurinista Ju Morais, graduada em Indumentária e mestre em artes visuais, apresenta Entre Rejas y Velo, trabalho que parte da observação das grades metálicas de Montevidéu, estruturas que tensionam as noções de dentro e fora, público e privado. Produzida durante uma residência no Uruguai, a obra sobrepõe madeira, bordado, crochê em arame e lã produzida por uma cooperativa de mulheres rurais uruguaias. Entre rigidez e flexibilidade, esses materiais evocam a grade como superfície de passagem, que simultaneamente filtra e expõe, por onde o íntimo sutilmente transborda.
Rafa Bqueer, artista paraense que transita entre a arte drag, o carnaval, a moda e as artes visuais, cruza todos esses universos e a cultura amazônica em esculturas têxteis de cores vibrantes que ocupam o espaço expositivo como feras não domesticadas. Bicha Papona (garra) e Themônia n. 5 assumem formas fantásticas e animalescas, borrando as fronteiras entre humano, fantasia e criatura. Entre exuberância, estranhamento e fabulação, os trabalhos afirmam formas de existência que escapam às identidades convencionais.
Anderson Arêas conjuga memória e natureza em Verde teatro do avesso, bordando uma volumosa cachoeira verde com fios de lã tingidos com erva-mate e incorporando crochês herdados da bisavó e rendas sobre uma tapeçaria em ponto musgo. O trabalho revela, no vai e vem das linhas, o jogo do avesso, como um teatro íntimo ou autoteatro. Em Tessitura II, texturas e movimentos de linhas e rendas contrastam com o pastel oleoso e o papel, formando um delicado organismo em tons terrosos e verdes.
Vinícius Pitô é filho, neto e sobrinho de costureiras. Sua prática parte da costura e da manipulação do tecido, entendido como matéria carregada de memória, histórias e afetos. Em um arrepio que lhe atravessa, camadas de tecidos, linhas, rendas e lã tingida se acumulam pela parede, formando uma espécie de corpo-tela marcado pelo excesso. Entre o preto e o vermelho, a obra se aproxima do imaginário da Pombogira, fazendo emergir elementos associados à sua presença e indumentária. Pregas, volumes, brilhos, bordados e texturas deslocam para a escultura elementos das roupas produzidas no terreiro. No centro da obra, a língua surge como elemento de força e ambiguidade: evoca a gargalhada como gesto de expansão, provocação e afirmação, mas também o erótico e o desejo, dimensões presentes no imaginário dessas entidades.
Em tempos de inteligência artificial e de olhares apressados, Cortejo celebra a vagarosidade do fazer manual e a desaceleração da percepção. Os trabalhos presentes nesta exposição escapam de associações imediatistas e se abrem à fabulação, convidando o público a acompanhar suas tramas, percorrer seus desvios e encontrar fios soltos. Como em um cortejo, cada obra se move em relação às outras, formando um corpo coletivo que permanece aberto a novas conexões e sentidos.



















